domingo, 13 de janeiro de 2013

Feeling e Guitarra


 Muitos alunos e colegas me perguntam o que é feeling, e como adquirí-lo. Toda vez é complicado de responder...é mais fácil indicar alguma apresentação live de um semi-gênio como Marty Friedman, ou alguns solos do Uli Jon Roth no Scorpions, ou ainda as pentas rasgadas de David Gilmour, bem como os bends de semibreve nas cordas de tensão 0,12 de B.B. King... ou até os riffs ponteados de Pat Martino pós-amnésia.

 Pois eh, esse tema dá mto pano pra manga. E nos parece tão indefinido que ainda hoje citamos-no em inglês; se formos transferir para o português parece que ele fica corrompido - o que significa que a própria palavra feeling transcende o termo, mas isso é historicismo...

 Enquanto os guitarristas iniciantes se deixam levar pelo visual de movimentação das mãos de fritadores como Cooley, outros já experientes e muito técnicos deixam de lado um dos maiores mestres do feeling guitarrístico: Jimmy Hendrix!

 O caminho que eu indicaria para um guitarrista conhecer o termo na prática é exatamente esse: ouvir músicas onde o canal destacado NÃO é a guitarra! Dessa forma, podemos ouvir a criatividade por meio da "voz" de cada instrumento. O feeling deixa de ser restrito ao universo dos guitarristas e passa ao universo música (o que importa!), mostrando os toques criativos de instrumentistas diversos. Eu mesmo me afasto por meses de qualquer música com guitarras, ora ouço banjo e violino no country, celta, ou trabalhos SÓ de sax e outros metais (Miami Saxophone Quartet!), ou erudito, trabalhos de piano, sintetizadores, flautas-doces, ou uma das minhas maiores paixões atuais, o New Age.

 O sistema de caras&bocas, cujo ato na prática parece tão ridículo para quem não entende nada de música, é um dos "sintomas" do feeling, que se dá também no nosso maior veículo transmissor - os gestos faciais.

 O conhecimento do feeling transcende realmente tudo que se possa anotar. Na prática, ele passa tão percebido que nos faz atingir o êxtase musical - e pouca gente entende quando uso esse termo; e é o que dá margem às crenças e interpretações da música (advindas do mundo espiritual, do corpo divino, da esfera celeste, da árvore musical, das interpretações das mônadas, etc). Sem cair nesse tipo de argumento, eu diria que Feeling (F!) só pode ser entendido depois de estabelecido por si mesmo...na prática, é sentir o que se está fazendo (harmonia funcional!) e o que está acontecendo com o produto final, a música, sendo assim o instrumento um mediador, e não um condicionador do feeling, o que mais uma vez requer que conheçamos música, e não só instrumentação! E, claro, precisamos ter um ótimo domínio técnico do instrumento para que ele possa atender nossas necessidades criativas (é terrível num improviso pensar em fazer algo que soaria mto legal, e não ter capacidade técnica pra executar).

 Isto envolve dinâmica, técnica, harmonias, ritmos e melodias.

 Andei ouvindo mestres em dinâmica na guitarra (George Bellas, Gambale, Mats Haugen, Guthrie Govan, Joey Tafolla) e noutros instrumentos (Luc Ponty, Brufford, Doug Richardson, Matt Jorgensen, Debussy [!!!], Coltrane, Bergonzi, Bela Fleck, Wooten) e senti um ganho musical tremendo na música com o uso desse recurso. Se bobear, esses caras conseguem impor dinâmica até nas figuras de pausa (colcheia de pausa mezzo-piano)...

 Ultimamente resolvi dar uma trabalhada nesse recurso. São bem poucos os guitarristas que usam. Vi uma composição de um músico, do qual não lembro o nome, tocando fusion SÓ com a  escala hexafônica num playback, e usando muita dinâmica...uma das coisas mais belas que já vi na vida!!


 Antes de sair solando à 300.000 Km/s, perceba a característica intrínseca de cada nota, e como elas atuam sobre a harmonia. Muitos mestres em velocidade atentaram nisso, e esses são os "bons-shredders",  que conseguem convencer, mesmo em alta velocidade, e deixar claras as intenções modais nas sequências de (conscientes!) digitações (como Marty Friedman, Jason Becker, Petrucci, Bellas, Vinnie Moore [el shredder-rei!], Shawn Lane, Michael Romeo, Patrick Rondat, Malmsteen, Stephan Forté, Greg Howe, Ardanuy, Ron Jarsombek, Kotzen, Loureiro).
 Outros, os "shredders-chatos", preocupam-se muito mais com a técnica e a estética das mãos "voando" pelo braço da guitarra, e a música acaba em segundo plano. Eventualmente sôa interessante, mas é notável a falta de criatividade e senso musical. Exemplos: Francesco Fareri, Chris Impellitteri, Matthew Mills, German Schauss, Rusty Cooley, Thiago Della Vega...
 Logo, claro que dá pra ter feeling e velocidade simultaneamente!

 Entender o que é "feeling" é realmente complicado...está muito além da leitura e mesmo da prática. É um exercício de resultado cumulativo apreendido pelo ouvido artístico. Ouvir e criticar boa música, praticar, sentir as notas musicas, a harmonia, a beleza dos ritmos e os variados timbres...e é o que garante nossa vaga no mercado musical, sem ameaça de robôs músicos (impossível criar um sistema eletrônico de feeling!).

 Então, mãos à obra - coragem, vontade e disciplina!